“There’s no picknick at Heartbreak Hotel”

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Conhece um tipo de melaconlia doce? Acho que, de tempos em tempos, ela é necessária. Ontem resolvi assistir “Lois & Clark – The New Adventures of Superman”, seriado um tanto datado (principalmente em termos de efeitos especiais), especialmente diante do sucesso de “Smallville”. Entretanto, ele conseguiu angariar alguns fãs, tal como esta escriba. Não sou fã de Superman, sou uma alucinada por Batman, Marv (Sin City), Lobo Solitário, Wolverine, Constantine. Sim, os reversos da persona Superman, talvez uma hora eu escreva algo sobre eles… Mas o que todos têm em comum? De maneiras diversas (é claro) todos perderam um amor. Alguns já tiveram um grande amor,  sempre contado a partir de um passado meio distante ou algo assim. No ano passado tive uma discussão feia com um amigo sobre qual seria a maior procura da humanidade. Em última instância é a felicidade, certo? (Tô certa, não?). A questão é a diversidade do que pode ser felicidade…

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[tocando aqui Etta “Amazing” James – The blues is my business]

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Bem, retomando à vaca fria… Eu tinha uns 14 anos quando assisti o seriado, na época eu queria ser uma Lois Lane menos cega (ou universalmente estúpida, qual a diferença que os óculos podem causar?). Outra coisa, eu estava na fase do “será que ser jornalista pode ser tão legal?”. Tive um exemplo caseiro de que a profissão não era tão colorida (e que eu não veria pessoas voadoras em collants brilhantes e estúpidos). Mas meu personagem predileto na série sempre foi o editor do Daily Planet, Mr. Perry White. Os diálogos mais legais? Ouça o “Chefe”. As cenas mais cômicas? Ele protagoniza.

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perry pirando de 'amor'

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Prestando atenção dá pra apanhar uma ou duas grandes frases proferidas pelo “Chefe” a cada episódio. A que eu “apanhei” ontem foi incrível: “There’s no picknick at Heartbreak Hotel”. Aumentou o grau da minha melancolia.

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No momento estou chegando na quarta e última temporada. Por conta de “Lois & Clark…” entrei num processo de “evasão social”, mas espero não gerar nenhum “constragimento sistêmico” que provoque alguma intervenção. Tenho fases de querer só a mim… Ultra self-centered nos últimos tempos…

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Melancolia número x¹²³:

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belas artes

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Eu havia preparado um selecionado com algumas frases, mas o jornal de hoje veio com a notícia mais cretina dos últimos tempos: “Belas Artes, 68, fecha as portas” (FSP/Ilustrada). Minha melancolia atingiu um grau insuportável. O jornal apresentou um coluninha escrita pelo cineasta Ugo Giorgetti. E eu – quase – assino com ele: não me lembro dos filmes que assisti por ali… Mas a memória afetiva nem sempre está em compasso com a minha (quase) cinefilia. De vez em quando eu percebo que a vida não é filme. E que nem sempre tenho tanta sorte. Giorgetti termina a coluna na FSP assim: “Agora, acompanhando o mundo a que pertenceu, o Belas Artes se vai para sempre. Não vou sentir saudades dele. O que sinto, no fundo, é saudades de mim, nele”. Estou num misto de sensações. Adoro as salas de cinemas dos anos 40-50’s (minha primeira paixão e desilusão araraquarense), sempre achei o Belas Artes um charme, parado no tempo e sem se ajoelhar a qualquer blockbuster. Todavia, a primeira vez que me senti muito, muito sozinha consegui perceber o quão fantástico e necessário é ter um amor ao seu lado…: Em 2009 aproveitei a proximidade ao “corredor dos hospitais” e fui assistir um filme qualquer, só pra distrair a cabeça… e notícia ruim vem a galope, não? E nem foi notícia, foi apenas confirmação de notícia. Não estou na memória coletiva relacionada ao Belas Artes, mas ele está na minha memória afetiva mais íntima. E sentirei saudades de algo que não precisa ser nomeado, um pouco de mim mesma e, talvez um pouco de quando as coisas eram mais simples (e, caramba, 2009 foi ontem mesmo! É estranho ter a certeza de que agora as coisas são mais sérias, mais complicadas e que parcela disso teve as suas mãos no meio…).

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[Abbey Lincoln – That’s him]

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Consegui encerrar minha fase beat (momentaneamente). Ganhei de Natal (comemorando ou não o dia mais cristão de nosso planetinha… as prendas sempre caem no meu colo) uma compilação de algumas das novelas de John Steinbeck, “Novels 1942-1952 – The moon is down, Cannery row, The pearl, East of Eden”/The Library of America. Foi meu único presente inesperado… (nah, também ganhei um bicho de pelúcia…?!).

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Como cheguei (tão tardiamente) ao velho Steinbeck? No ano passado eu gastava um tempo miserável na rodoviária e eu nunca tive paciência para leitura acadêmica em locais barulhentos… mas um romance? Sinto-me em casa, de pijamas com uma boa xícará de chá me acompanhando… Comprei “A pérola” (um desses geniais pocket-books) e me apaixonei pelo Steinbeck. Falei para minha mãe da minha mais nova aquisição apaixonante e a emprestei para ela. Ela concordou prontamente com o meu entusiasmo, acho que minha mãe sempre concordou com as minhas paixões por filmes e livros… (rs), somente essas paixões (mas já é mais do que muita gente pode dizer, não?). E a mamãe noel nunca falhou (rs), mas eu sim. Sabe-se lá o motivo, mas achei que fosse ganhar “Naked lunch”, do William S. Burroughs… Só que eu nunca nem tinha falado do Burroughs pra ela… (rs). Abri o pacote e poucas vezes fiquei tão surpresa… Surpresa feliz, mas ainda surpresa:

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Steinbeck-Novels-1942-1952_-The-Moon-Is-Down-_-Cannery-Row-_-The-Pearl-_-East-of-Eden-_Library-of-America_

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E falei na lata, sem pestanejar: Uau, legal pacas! Adorei…!  Adorei mesmo, tô doida pra ler “A pérola” no original, mas… cadê o Burroughs? Sim, eu sou uma lerda cretina lenta. Uma filha única cretina (ok, a justificativa foi o pior remendo possível). Aí minha super mãe foi falando, falando e eu fui me lembrando, lembrando de nunca ter falado uma vírgula sobre meu desejo em ter “um” Burroughs. Sou uma cretina, mas tenho uma ou duas boas qualidades apreciadas pela minha genitora (rs) e nos próximos meses um certo “Naked lunch” estará em minha prateleira dedicada aos gringos. Todo filho tem algo a reclamar sobre os pais. Uma coisa nunca me foi negada (em tempo algum): todo livro que eu quis e pedi eu tive. Hm, gostaria que minha mãe ampliasse a “dadivosidade” para filmes, mas deixarei isso pra nossa próxima vida em comum (espero continuar na posição de filha)…

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Todo esse blah blah blah para que eu possa escrever uma carta que está no livro. E para que minha melancolia atual ganhe uma forma mais bonita e delicada. É uma carta de amor à experiência e ao porvir. E acho que é uma das cartas de amor mais lindas que já li. Está na introdução de East of Eden (p. 308).

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“Dear Pat,

You came upon me carving some kind of little figure out of wood and you said, ‘Why don’t you make something for me?’

I asked you what you wanted, and you said, ‘A box.’

‘What for?’

‘To put things in.’

‘What things?’

‘Whatever you have’, you said

Well, here’s your box. Nearly everything I have is in it, and it’s not full. Pain and excitement are in it, and feeling good or bad and evil thoughts and good thoughts – the pleasure of design and some despair and the indescribable joy of creation.

And on top of these are all the gratitude and love I have for you. And still the box is not full”.

Não estou na melhor forma, mas a tradução é mais ou menos assim:

“Querido Pat,

Você veio a mim com uma escultura, um pedaço de madeira e me disse: ‘Por que você não faz alguma coisa para mim?’

Eu perguntei o que você queria, e você disse: ‘Uma caixa’.

‘Para quê?’

‘Para colocar coisas nela’

‘Que coisas?’

‘Tudo o que você tem’, você disse.

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Bem, aqui está sua caixa. Quase tudo o que tenho está nela, e não está completa. Dor e emoção estão nela, e sentimentos bons ou maus, pensamentos ruins e pensamentos bons – o prazer do enredo e algum desespero e a alegria indescritível da criação.

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E por cima destes estão toda a gratidão e amor que tenho por você. E ainda a caixa não está cheia “.

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alguns snakebites

Sobre eudoras
Eudora continua (tentando) rumar à leste...

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