Ah, o “sincretismo” francês!

O editorial da Folha de S. Paulo (“Intolerância à francesa”) foi direto no nervo, desde 11 de abril o uso de véus islâmicos está proibido na França, sim a mesma nação do “Liberté, égalité, fraternité” proibiu a indumentária em locais públicos. O pretexto? Favorecimento de comportamentos suscetíveis de perturbar a ordem pública.

A inteligência do editorial está na apresentação da contradição da lei: “a lei se aplicaria a qualquer acessório – como máscaras ou capacetes – que oculte o rosto. A intenção de discriminar muçulmanas transparece quando se considera a exceção feita à lei: máscaras usadas no contexto de festas, manifestações artísticas ou procissões religiosas, ‘desde que se revistam de caráter tradicional. Cristãos, portanto, podem cobrir o rosto no carnaval, no Halloween ou em procissões. Muçulmanos, no dia a dia, não – ainda que a peça seja de uso tradicional“. O engraçado da lei? Ela não prevê a prisão dos que a infringirem, as portadoras dos véus banidos também não poderão ser obrigadas a retirar o véu na rua, e sim levadas a alguma delegacia a fim de que a sua identificação seja realizada. E então? Bem, meus caros, as infratoras deverão pagar uma multa de cerca de R$ 340,00 e, pasmem: aulas de cidadania francesa. Ah, caso alguém obrigue a mulher a usar o véu, a pessoa que a coagiu poderá amargar um ano na prisão e pagar um multa de cerca de R$ 70.000 (o valor dobra no caso de menor de idade). É notória a sujeição das mulheres árabes (perdoem a generalização), mas desde quando o Estado (democrático, diacho!) pode interferir nos aspectos religiosos da sociedade? A modernidade não nasceu na França? Aprendi tudo errado? A despeito dos Bolsonaros que pipocam por aí de vez em quando sinto-me privilegiada por estar na Terra de Pindorama, onde ainda possuo minhas liberdades garantidas pela Constituição.

OS TIPOS DE VÉUS

[os tipos proibidos: niqab e burca]

É piada velha a anedota sobre o francês xenófobo, mas agora ganha ares políticos, ou melhor, marketing político.

Não pertenço aos bilhões que possuem alguma religião. Declaro-me e sinto-me agnóstica há mais anos do que recordo. Mas sempre respeitei a fé e/ou religião de terceiros.  E causa-me verdadeiro horror ver a direita crescer tão assombrosa e causa-me ainda mais pavor ver o Estado legislar sobre a religiosidade de seu povo.

Entendo o temor por atos terroristas e o clamor por mais segurança. O que não entendo é como pode um Estado democrático e de “caráter” liberal aterrorizar (o que acontece com os muçulmanos franceses não é terrorismo?) e excluir uma dada parte de sua população por meio da legislação. Outra coisa que está me assustando bastante é o silêncio da população não-islâmica. É (…), vivemos em tempos de que cada um defende o seu, somente isso. Não dá mais pra contestar a Era da individualização.

Ah… por hoje é só, tenho que voltar a trabalhar.

snakebites e Feliz Dia Internacional do Beijo

Sobre eudoras
Eudora continua (tentando) rumar à leste...

One Response to Ah, o “sincretismo” francês!

  1. Pingback: pesquisa de opinião, reflete o quê? « e * u * d * o * r * a * s

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: