Atrativos da maldade

eye on me

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Há anos inicio a escrita sobre o lado cruel e monstruoso de alguns gênios (outros nem tanto), mas sempre deixo de lado porque é perturbador não conseguir abandonar paixões ou mesmo separar o artista do humano. Não sei se por vergonha ou constrangimento… mas um dos dois serve de espelho e me acossa. 

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Varri para uma área distante e nebulosa os feitos de vários homens: Billy Idol, W. Axl Rose, Roman Polanski.

Billy Idol e Axl Rose foram meus ídolos de adolescente. O Billy foi fácil manter por perto, só me dava vontade de dançar. Os anéis nunca me assustaram. 

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billy-idol

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Em 2018, nas comemorações de 31 anos, o GN’R lançou o Locked N’ Loaded e, de maneira inteligente (por marketing do politicamente correto ou pela evolução/crescimento espiritual e humano de Mr. Rose), ocorreu a exclusão de uma das músicas mais preconceituosas do rock n’ roll (mainstream)…. “One in a million” é um erro de construção em qualquer acepção.

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“Police and niggers, that’s right

Get out of my way

Don’t need to buy none of your

Golds chains today

I don’t need no bracelets

Clamped in front of my back

Immigrants and faggots

They make no sense to me

They come to our coutry

And think they’ll do as they please

Like star some mini Iran

Or spread some fuckin’ disease

They talk so many goddman ways

It’s all greek to me”

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Já fiz muitas loucuras pra ir nos shows do GN’R e, posteriormente, de seus integrantes em carreira solo. O insano é que Mr. Rose e cia. estão falando diretamente comigo: imigrante, negra, não-heteronormativa.

O GN’R foi a minha primeira banda. Aos 8 anos eu não entendia a raiva ou a fome daquele pessoal, mas a insatisfação me aninhava: finalmente senti que fazia parte de algo. Eu queria gritar e não sabia pelo quê. Embora eu não soubesse explicar, o “belonging” me acalentou.

Alguns anos mais tarde eu consegui entender a revolta dos homens brancos, heteros e cis que abusam de mulheres (!). Vá para um dos maiores sucessos de Appetite for destruction, Welcome to the jungle:

Esqueça as drogas. Esqueça. Esqueça a provocação sadomasoquista. Esqueça. Esqueça a hipersexualidade do clipe. Esqueça. A estória é sobre como é possível manipular ou entorpecer o outro. No caso, o outro… são as outras, porque antes de assinar com a Geffen Records, os meninos do GN’R foram cafetões. 

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“Welcome to the jungle, it gets worse here every day

You learn to live like an animal in the jungle where we play

If you hunger for what you see you’ll take it eventually

You can have everything you want but you better not take it from me

In the jungle, welcome to the jungle

Watch it bring you to your knee, knee, knees, knees

I’m gonna watch you bleed

And when you’re high you never ever want to come down

So down, so down, so down, yeah”

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Eu continuo ouvindo a música que abre o Appetite. Com consciência crítica, com nervo sociológico exposto. E, mui possivelmente, o meu filtro é outro. Ouço como relato, como diagnóstico de situação. Mas penso que na maioria das vezes eu simplesmente ouço a música, sem quaisquer reflexões.

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Como consegui “perdoar”, ou seja, permaneci consumindo GN’R, Billy Idol ou Pete Townshend?

O Polanski sempre me assombrou, mas de algum jeito torpe, eu consegui abafar a repulsa. Calei o nojo. E, então… o Woody Allen. Minha primeira confissão: 

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O escritor? Talvez o Balzac da segunda metade do século XX.

O diretor?  Ok, mas sempre parece que estou apenas espiando a vida privada de algum casal.

O ator? Razoável (?).

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É um cineasta importante. Mas fundamental? Não sei se preciso dele para continuar falando de cinema. E daí brota a questão que me faz escrever e jogar o post pro limbo dos rascunhos: eu consumo arte. A arte. Não sou amiga, camarada ou tenho qualquer afeto pelo autor da obra. A obra perde seu valor porque o autor é um escroque, falho ou mesmo criminoso? Somos (ou devemos ser) moralmente responsáveis por traçar limites  entre o homem e sua criação? O ético seria demonstrar nossa repulsa pelo boicote? Tudo em mim grita pela recusa a esses artistas, mas o apelo do que oferecem não somente é inegável, mas é sobremaneira irresistível, ao menos por enquanto.

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A minha falta de paixão ou qualquer outro sentimento de aquecer o ventre me levou a olhar pro Woody Allen pelo que ele é sempre foi: Um monstro. Li a carta de Dylan Farrow  sobre as agressões sexuais. Quem conseguiu esquecer o início midiático do relacionamento com a Soon-Yi…? Mas rechaçar o Allen é fácil. E os outros?

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Vou publicar este post. Nem que seja pra atestar a minha hipocrisia. Porque ninguém é hipócrita com seus prazeres. [Camus? A queda?]

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Words are cheap, baby!

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A tragédia dos (ou nos) relacionamentos, o envelhecimento, o sexismo e a fraternidade. Acredito que “O declínio do império americano” (1986) seja um dos melhores exemplares do cinema canadense, bem como seu sucessor, “As invasões bárbaras” (2003), ambos dirigidos por Denys Arcand.

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O filme inicia com uma fala máxima sobre o que muitos das Humanidades ainda não entenderam:

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“Há três coisas importantes na História. Primeira: o número. Segunda: o número. E terceira: o número. Isso significa, por exemplo, que os negros sul africanos… certamente um dia acabarão vencendo… enquanto os negros norte-americanos provavelmente nunca se libertarão. Isso significa também que a História não é uma ciência moral. Os direitos, a compaixão, a justiça são noções estranhas à História.”

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A fala é seca, direta e doída para quem entrou para qualquer curso afim às Ciências Sociais. Mas para alguns sempre restará o terceiro setor (um viva a esses!).

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No meio do filme um dos intelectuais discute o que é o amor e como ele sabe que está amando ou deixando de amar. A conversa, na realidade mais um monólogo é com o personagem mais jovem da trama e, talvez por isso, mais ingênuo, cuja ambição é somente ser feliz.

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“Como nas anotações de Wittgenstein: ‘a única certeza que nos resta… é a capacidade de agir de nosso corpo’. Se amo, eu me excito. Se não me excito, eu não amo”.

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Perto do final do filme, está lá, o jovem ingênuo e inseguro diante do amor (ah, quem não esteve no papel do jovem que atire a primeira pedra!):

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“- Vou vê-la de novo?

– É claro. Por que pergunta?

– Não sei. As coisas que você diz, às vezes não sei o que pensar.

– Words are cheap, baby.

– O que quer dizer?

– Não ouça o que digo, mas me toque.”

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Para encerrar os pequenos excertos que cacei no filme a fala de uma das intelectuais (tinha que existir uma representante do gênero feminino, não?). Eles todos à mesa, saboreando um torta de truta e vinho (hmm), de repente entram num debate sobre a necessidade que as mulheres têm de fazer “cursos”:

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” – Parece que há cursos de culinária criativa no Instituto de Hotelaria.

–  Lulu, não recomece seus cursos!

– Por que não?

– Que mania as mulheres têm de sempre fazer algum curso?

– Não é difícil entender.

– À noite, na Universidade… está cheio de mulheres anotando tudo sobre o espírito de Locarno.

– Sou eu que dou esse curso.

– Eu sei, mas não entendo.”

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[corte para a professora que dá o dito curso relembrando uma de suas aulas]

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“- Por isso censuramos a História por se interessar só pelos vencedores. Mas no fundo é sempre por uma questão de documentação. Temos mais documentos sobre os egípcios que sobre os núbios. Mais sobre os espanhóis que sobre os maias. E mais sobre os homens que sobre as mulheres. Aliás, esta é uma limitação da história. Mas talvez haja um elemento psicológico. No fundo, preferimos ouvir sobre vencedores a ouvir sobre vencidos”.

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Falei sobre o tema noutro post, temos um interesse mórbido pelos vencedores, seja lá qual tenha sido a vitória. A batalha por observar o sucesso. Outro dia assisti “How to lose friends & alienate people” (aqui com a péssima tradução “Um louco apaixonado”), uma dessas comédias britânicas que brinca com a ideia de um inglês desajeitado porém, apaixonado pelo conceito renovado do “american way of life”, isto é, o sucesso a qualquer custo: seja uma celebridade ou seja convidado para as festas que as celebridades oferecem.

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O caminho entre glamour, neon e ser feliz pode apresentar alguns pedregulhos… Mas retomando à vaca fria (saudades do Werneck), há um, dois meses assisti um filme sobre o sucesso alimentado pela fraude. Não me recordo do nome do filme… A estória é praticamente idêntica a de “Kassim the dream“, a diferença é que o protagonista não a vivenciou, mas publicou como tendo feito. Ou seja, nada aconteceu com o rapaz. Ele não foi sequestrado quando criança para lutar, não assassinou ninguém etc. etc. etc. E o livro do sobrevivente vira um best-seller. Até que alguém descobre o engodo. Todos se esquecem do grito de desespero de milhões de africanos que, realmente, vivenciam tal violência para execrar o falsário. Isto é, se não temos o vencedor que desejamos, temos um judas. E a ideia vende tão bem quanto.

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A obra de Denys Arcand merece visitas e revisitas. Cada vez que assisto me perco em novas concepções… e me encanto por novas cenas, novos diálogos.

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snakebites

 

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