Words are cheap, baby!

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A tragédia dos (ou nos) relacionamentos, o envelhecimento, o sexismo e a fraternidade. Acredito que “O declínio do império americano” (1986) seja um dos melhores exemplares do cinema canadense, bem como seu sucessor, “As invasões bárbaras” (2003), ambos dirigidos por Denys Arcand.

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O filme inicia com uma fala máxima sobre o que muitos das Humanidades ainda não entenderam:

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“Há três coisas importantes na História. Primeira: o número. Segunda: o número. E terceira: o número. Isso significa, por exemplo, que os negros sul africanos… certamente um dia acabarão vencendo… enquanto os negros norte-americanos provavelmente nunca se libertarão. Isso significa também que a História não é uma ciência moral. Os direitos, a compaixão, a justiça são noções estranhas à História.”

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A fala é seca, direta e doída para quem entrou para qualquer curso afim às Ciências Sociais. Mas para alguns sempre restará o terceiro setor (um viva a esses!).

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No meio do filme um dos intelectuais discute o que é o amor e como ele sabe que está amando ou deixando de amar. A conversa, na realidade mais um monólogo é com o personagem mais jovem da trama e, talvez por isso, mais ingênuo, cuja ambição é somente ser feliz.

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“Como nas anotações de Wittgenstein: ‘a única certeza que nos resta… é a capacidade de agir de nosso corpo’. Se amo, eu me excito. Se não me excito, eu não amo”.

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Perto do final do filme, está lá, o jovem ingênuo e inseguro diante do amor (ah, quem não esteve no papel do jovem que atire a primeira pedra!):

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“- Vou vê-la de novo?

– É claro. Por que pergunta?

– Não sei. As coisas que você diz, às vezes não sei o que pensar.

– Words are cheap, baby.

– O que quer dizer?

– Não ouça o que digo, mas me toque.”

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Para encerrar os pequenos excertos que cacei no filme a fala de uma das intelectuais (tinha que existir uma representante do gênero feminino, não?). Eles todos à mesa, saboreando um torta de truta e vinho (hmm), de repente entram num debate sobre a necessidade que as mulheres têm de fazer “cursos”:

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” – Parece que há cursos de culinária criativa no Instituto de Hotelaria.

–  Lulu, não recomece seus cursos!

– Por que não?

– Que mania as mulheres têm de sempre fazer algum curso?

– Não é difícil entender.

– À noite, na Universidade… está cheio de mulheres anotando tudo sobre o espírito de Locarno.

– Sou eu que dou esse curso.

– Eu sei, mas não entendo.”

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[corte para a professora que dá o dito curso relembrando uma de suas aulas]

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“- Por isso censuramos a História por se interessar só pelos vencedores. Mas no fundo é sempre por uma questão de documentação. Temos mais documentos sobre os egípcios que sobre os núbios. Mais sobre os espanhóis que sobre os maias. E mais sobre os homens que sobre as mulheres. Aliás, esta é uma limitação da história. Mas talvez haja um elemento psicológico. No fundo, preferimos ouvir sobre vencedores a ouvir sobre vencidos”.

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Falei sobre o tema noutro post, temos um interesse mórbido pelos vencedores, seja lá qual tenha sido a vitória. A batalha por observar o sucesso. Outro dia assisti “How to lose friends & alienate people” (aqui com a péssima tradução “Um louco apaixonado”), uma dessas comédias britânicas que brinca com a ideia de um inglês desajeitado porém, apaixonado pelo conceito renovado do “american way of life”, isto é, o sucesso a qualquer custo: seja uma celebridade ou seja convidado para as festas que as celebridades oferecem.

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O caminho entre glamour, neon e ser feliz pode apresentar alguns pedregulhos… Mas retomando à vaca fria (saudades do Werneck), há um, dois meses assisti um filme sobre o sucesso alimentado pela fraude. Não me recordo do nome do filme… A estória é praticamente idêntica a de “Kassim the dream“, a diferença é que o protagonista não a vivenciou, mas publicou como tendo feito. Ou seja, nada aconteceu com o rapaz. Ele não foi sequestrado quando criança para lutar, não assassinou ninguém etc. etc. etc. E o livro do sobrevivente vira um best-seller. Até que alguém descobre o engodo. Todos se esquecem do grito de desespero de milhões de africanos que, realmente, vivenciam tal violência para execrar o falsário. Isto é, se não temos o vencedor que desejamos, temos um judas. E a ideia vende tão bem quanto.

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A obra de Denys Arcand merece visitas e revisitas. Cada vez que assisto me perco em novas concepções… e me encanto por novas cenas, novos diálogos.

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snakebites

 

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Mais uma quarta não muito inspirada

Acordei num estado excessivamente blergh, para não fugir ao espírito ultra-boring da quarta-feira nossa de cada semana e pagar a língua sobre o que tenho falado do Thom Yorke resolvi aquiescer e deixar o geist do dia mais insosso da semana entrar em casa.

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Ontem à noite precisei assistir “Being Human” (o da BBC, claro) para dormir, achei que fosse bastar, não bastou. Tasquei um daqueles velhos episódios da “Liga da Justiça” (aquele mesmo que passava no SBT). Enfim adormeci, mas acordei hoje com uma sensação estranha, sentimento de ausência de algo inominável, não sei como, mas quando dei por mim estava com “Kaputt”, do Curzio Malaparte em mãos. Não foi o bastante, fiquei relendo algo que não me enlaçou e nem fez meu cérebro formigar há 15, 16 anos. Por que agora seria diferente? Nada mudou em relação à descoberta da minha genealogia e continuo tendo mais interesse histórico na Primeira do que na Segunda Guerra (nem vem que a idiossincrasia é minha!).

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Procurei no google pra ver se alguém estava tentando filmar a vida do Malaparte: nada (acredito piamente em mensagens subliminares e afins). Motivação para o presente post? Registrar aqui minha insatisfação com a nulidade (talvez pela minha ignorância cinéfila, mas vá lá) de filmes a partir da ótica do Eixo. É sempre a mesma história quando se trata da Segunda Guerra… Há tratamentos inovadores, como os incríveis “Train de vie” “e “Inglorious basterds”, mas no mais é sempre a mesma mão que conduz ideia e, finalmente, o roteiro. É, tô mal humorada mesmo. [respirando pausadamente e entoando meu mantra: “always look on to the bright side”]

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Antes de mais nada, tenho verdadeiro horror a qualquer tipo de fascismo, colonialismo, política genocida e insanidades de igual quilate. Mas falta, ainda falta, a percepção do outro lado. A questão do “Outro” instiga demais esta escriba, mas reafirmo: não acredito que haja algo a entender (sentido de lógica, por favor!) a respeito dos genocidas do Eixo, não há justificativa ou compreensão a ser oferecida por eles. Mas eu tenho interesse na história dos perdedores (se bem que algumas crias conseguiram se multiplicar e disseminar a ideologia neo-nazi, isto é, ainda existem alguns pequenos monstros para deixar marcas mais do que profanas por aí). Não penso que a história dos vencedores invalide a história dos vencidos, mas ele ainda precisa ser contada. E, ao contrário de Richard Williamson, não tenho dúvida alguma a respeito do Holocausto.

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Bem, retomando à vaca fria… Não sei muito bem a razão de ter lançado olhos pra “Kaputt”… Depois de duas horas de leitura sobre o terror do nazi-fascismo por uma das vozes dele… Meneei em slow motion a cabeça, como é dado aos seres que só avançam no tranco ou na banguela e segui em derrocada. Ou melhor, deixei “The Eraser”, do Thom Yorke, engolir a casa. Na última semana falei mal dele e isso ficou entranhado em mim, fiz coisa feia? A resposta veio em lamento musical, de repente bateu uma vontade tremenda de cair pra ouvir um dos “losers” mais endinheirados desde os anos 90’s…

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É acho que estou precisando ver a Liga da Justiça arrebentar com um punhado de vilões para animar esta quarta-feira absurdamente ensolarada e barulhenta e, mesmo assim, ultra morosa… Preciso voltar ao que existe de mais caipira…

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alguns  snakebites

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