A hora mais perigosa

plantão da globo

Áudios, vídeos e fotos. O conjunto completo para desfazer um casamento quando o acordo pré-nupcial é salgado demais. O roteiro ficou um pouco pastelão, encontro furtivo em shopping, carregar mala em pizzaria e ameaças não muito veladas. Seriam esses os ingredientes necessários para despolarizar todo um país? “O meu é tão ruim quanto o seu, vamos marcar aquele churras?” 

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No momento, há quem peça a volta de Lula, a volta de Dilma, a entrada de Carmen Lúcia, a continuação de Temer, o fenômeno surreal da intervenção militar democrática (?!), retorno dos monarquistas (aparentemente nunca indiciados em nada) e o pessoal das “Diretas Já” (embora nossa CF não dê – ainda – espaço para isso). Superficialmente, o único abandonado foi Aécio Neves.

 

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O Brasil ficou alvoraçado ao tomar conhecimento de que haviam áudios “bombásticos”. E, ao contrário de outros momentos, com vazamento quase ao vivo, tivemos que aguardar. A mídia televisiva fez o sinal da cruz para o governo Temer, inclusive a poderosa rede Globo. A certeza invadiu mortadelas, coxinhas e isentões: nas redes sociais já pipocavam #ForaRodrigoMaia, #DiretasJa #ForaTemer #Bolsomito 

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A espera do áudio entre Joesley Batista e Michel Temer chegou ao fim. E, desta vez, não tinha mesóclise nem latim … Tínhamos um monossilábico ou inaudível Temer. Dá para ancorar a destituição de um presidente em “Tem que manter isso, viu?” (possível referência ao pagamento do silêncio do homem mais bem informado desse país, vulgo Eduardo Cunha).

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Independentemente do seu lado nesse Fla x Flu você esperava mais munição, não? Algo como as transcrições do Aécio (“A gente mata ele antes de fazer a delação”). Com plantão da rede Globo não se brinca. É sempre morte, caos, choro e revolta. E Michel Temer aguardou e, pela primeira vez, mostrou os dentes ao falar que não renuncia. E ainda vai mandar o áudio para peritos desacreditarem a PF. Teria sido tudo editado.

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Sinceramente? Em um primeiro momento tivemos uma debandada virtual: Bruno Araújo, Roberto Freire, Aloysio Nunes e Raul Jungmann sairiam do governo. Todos com cartas de demissão prontas. A bolsa paralisando atividades, o que não acontecia desde a convulsão do mercado de 2008. Foram protocolados oito pedidos de impeachment! O cenário foi dado, mas o protagonista parece ter adquirido ideias próprias de como articular o enredo. E não dá para duvidar das cartas que ele esconde.

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Pelo plantão, a Globo chamou o brasileiro na chincha e nós ouvimos, todos nós ouvimos. É hora de esquecer o acirramento que vem, desde 2013 nublando ações e palavras. Assentimos com a cabeça e um filme passa: outro processo de impeachment? Ok, já conhecemos o roteiro (palpitações). E eleições indiretas? Lista fechada. E qualquer um podendo ser presidente. Medo, medo, medo. Respeitar as instituições democráticas, respeitar a Constituição (…) PEC, mudar a Constituição, eleições diretas. Podemos esperar tanto? 2018 já está quase aí. Quando coxinhas, mortadelas e isentões começam a falar que não se salva um, obrigatoriamente deve surgir um salvador da pátria, especialmente um que não tenha muita história dentro da política tradicional.

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Ou foi tudo uma grande jogada para fortalecer Michel Temer… Porque suspeição não é prova. Ou é?

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E não nos esqueçamos do Joaquim:

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,brasileiros-devem-se-mobilizar-e-reivindicar-renuncia-de-temer-diz-joaquim-barbosa,70001795537

A sociedade e o herói da vez

uniao

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O eudoras nasceu no ano seguinte ao golpe em Honduras e devo confessar que o assunto não tomou minha atenção por mais de uns dias. Recordo-me da polarização política, das tentativas de Zelaya retornar ao país com insucesso até conseguir refúgio na Embaixada do Brasil, em Tegucigalpa. Lembro-me também da mordaça de censura em setores da mídia. Não mais do que isso.

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Já com o blogue ativo assisti a queda de Lugo e o que nos deixou atônitos foi o célere processo de impeachment paraguaio. Mas ao contrário do ocorrido em Honduras pudemos observar algo inovador: o golpe institucional ou golpe parlamentar. Diversas frontes de caráter esquerdistas apontam Honduras como laboratório para a tomada de governos latino-americanos. Em função do caos hondurenho não é possível chamar o processo, envolvendo exército nas ruas, impossibilidade do presidente retornar ao país de sucesso. Todavia, embora a destituição de Lugo tenha sido atribulada, o rito de impeachment revestiu a saída do presidente em tons de legalidade.

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Daí reside a dúvida de muitos, como qualificar de golpe quando o caminho trafegado para a destituição do governante tem as letras da Constituição? O sentido lato do coup d’Etat é a deposição de um governo legitimamente instalado e, normalmente, essa deposição esteve atrelada ao recurso de violência militar. Isto é, o nosso entendimento histórico de golpe de Estado aponta ruptura institucional.

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Não tem como deixar de evocar O 18 de Brumário*. A atualidade do prefácio de Engels é inquietante: “… a grande lei da marcha da história, lei segundo a qual todas as lutas históricas, quer se processem no domínio político, religioso, filosófico ou qualquer outro campo ideológico são, na realidade apenas a expressão mais ou menos clara de lutas entre classes sociais, e que a existência e, portanto, também os conflitos entre essas classes são, por seu turno, condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica, pelo seu modo de produção e pelo seu modo de troca, que é determinado pelo precedente” (Marx & Engels, Textos 3, p. 202).

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A imagem abaixo poderia personificar o prefácio de Engels…

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Sobre os manifestantes (diversos jornais e pesquisas):

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Não há dúvidas, para quaisquer lados em que se faça o exame do que se manifesta no Brasil nos últimos anos: é uma luta histórica. A imprensa tem caracterizado os agentes dessa luta segundo a composição antagônica simplória de defensores do governo versus defensores do impeachment. Nessa acepção maniqueísta torna-se fácil escolher um lado e de repente tropeçamos na cólera de cientistas políticos em qualquer esquina. O interesse sobre questões políticas e de política-econômica da população brasileira não é apenas saudável como necessário. Entretanto, como não problematizar uma sociedade de crítica seletividade?

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Quando o jornalista Paulo Duarte colaborou na série de reportagens sobre as suspeitas de desvio de dinheiro público no governo Adhemar de Barros e criou** (em tom sarcástico) o slogan “rouba mas faz” não imaginaria que em poucas décadas o bordão perderia o tom sarcástico. O homem-médio brasileiro parece sentir a corrupção como algo naturalizado (do furar fila aos pequenos desvios de verbas públicas) e somente passa a demonstrar indignação a partir do alimento midiático. Em nossa história recente temos os caras pintadas do Fora Collor e agora também em verde e amarelo a multidão grita pelo fim da corrupção. A indignação com representantes eleitos  merece toda atenção. Mas aqui residem dois problemas fundamentais: a desinformação da sociedade em relação ao espinhoso tema das pedaladas fiscais (não há consenso sobre o tema) e a anuência em relação a contraparte congressista.

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A intenção não é desqualificar a parcela da população favorável ao impeachment de Dilma Rousseff, mas de problematizar a forma como o processo é veiculado e como é aceito sem qualquer contestação. É do interesse de uma parcela significativa da população que ocorra o impeachment isso é fato inegável. Não sabemos ainda se motivados pela ascensão social e econômica de uma população alijada de qualquer perspectiva (a nova-nova classe média). Não sabemos se foram as contínuas derrotas nas urnas no plano federal (2002-2006-2010-2014). Não sabemos se pela genuína vontade de combater a corrupção. Não sabemos se em função da crise econômica global. Ou talvez essas e muitas outras facetas tenham servido de agente acelerador no avivamento da lisura, honestidade, seriedade…

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Enfim, qualquer leitura abre possibilidades múltiplas de interpretação.  Mas se a ideia principal está centrada no combate à corrupção como compreender o silêncio sobre o Presidente da Câmara dos Deputados? Para o paulista (as maiores manifestações anti-Dilma concentraram-se em São Paulo) fica a questão dos escândalos abafados: trensalão, máfia das merendas  entre tantos outros. Assumimos o jeitinho brasileiro como caráter nacional, quase uma tradição e nossas pequenas corrupções são toleradas/festejadas (levar uma canetinha do escritório, parar na vaga de deficiente físico, dirigir alcoolizado etc.). Todavia, para a política nos imbuímos de virtù, estufamos o peito e bradamos: BASTA! E ainda assim, quando a retidão e a justiça são nossas bússolas relativizamos a corrupção. Nosso Congresso pode não ter credibilidade, mas nossa sociedade civil é seu espelho.

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Infelizmente ainda vivemos e consumimos heróis porque a salvação não parece estar em nossas mentes e vozes. Nos últimos anos o elenco não parou de crescer: Fomos Barbosa para presidente, nos purificamos ao sabor de que não elegemos Dilma, passamos a celebrar Cunha como um combatente fervoroso da corrupção, depois passamos bendizer um outro juiz.

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Por mais piegas que seja (…) minha fé está e sempre estará no heroísmo de cada um que consegue ser um cidadão pleno. Reivindicando direitos, contextualizando a demanda por novos direitos, acompanhando o seu representante (tendo recebido ou não o seu voto), conhecendo o seu país. E defendendo o seu país como unidade.

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* Link para realizar o download do livro (não contém os prefácios)

** Existem dúvidas sobre a autoria. Mas a historiografia aponta Paulo Duarte como o mais possível responsável pela frase.

snakebites

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