A sociedade e o herói da vez

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O eudoras nasceu no ano seguinte ao golpe em Honduras e devo confessar que o assunto não tomou minha atenção por mais de uns dias. Recordo-me da polarização política, das tentativas de Zelaya retornar ao país com insucesso até conseguir refúgio na Embaixada do Brasil, em Tegucigalpa. Lembro-me também da mordaça de censura em setores da mídia. Não mais do que isso.

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Já com o blogue ativo assisti a queda de Lugo e o que nos deixou atônitos foi o célere processo de impeachment paraguaio. Mas ao contrário do ocorrido em Honduras pudemos observar algo inovador: o golpe institucional ou golpe parlamentar. Diversas frontes de caráter esquerdistas apontam Honduras como laboratório para a tomada de governos latino-americanos. Em função do caos hondurenho não é possível chamar o processo, envolvendo exército nas ruas, impossibilidade do presidente retornar ao país de sucesso. Todavia, embora a destituição de Lugo tenha sido atribulada, o rito de impeachment revestiu a saída do presidente em tons de legalidade.

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Daí reside a dúvida de muitos, como qualificar de golpe quando o caminho trafegado para a destituição do governante tem as letras da Constituição? O sentido lato do coup d’Etat é a deposição de um governo legitimamente instalado e, normalmente, essa deposição esteve atrelada ao recurso de violência militar. Isto é, o nosso entendimento histórico de golpe de Estado aponta ruptura institucional.

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Não tem como deixar de evocar O 18 de Brumário*. A atualidade do prefácio de Engels é inquietante: “… a grande lei da marcha da história, lei segundo a qual todas as lutas históricas, quer se processem no domínio político, religioso, filosófico ou qualquer outro campo ideológico são, na realidade apenas a expressão mais ou menos clara de lutas entre classes sociais, e que a existência e, portanto, também os conflitos entre essas classes são, por seu turno, condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica, pelo seu modo de produção e pelo seu modo de troca, que é determinado pelo precedente” (Marx & Engels, Textos 3, p. 202).

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A imagem abaixo poderia personificar o prefácio de Engels…

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Sobre os manifestantes (diversos jornais e pesquisas):

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Não há dúvidas, para quaisquer lados em que se faça o exame do que se manifesta no Brasil nos últimos anos: é uma luta histórica. A imprensa tem caracterizado os agentes dessa luta segundo a composição antagônica simplória de defensores do governo versus defensores do impeachment. Nessa acepção maniqueísta torna-se fácil escolher um lado e de repente tropeçamos na cólera de cientistas políticos em qualquer esquina. O interesse sobre questões políticas e de política-econômica da população brasileira não é apenas saudável como necessário. Entretanto, como não problematizar uma sociedade de crítica seletividade?

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Quando o jornalista Paulo Duarte colaborou na série de reportagens sobre as suspeitas de desvio de dinheiro público no governo Adhemar de Barros e criou** (em tom sarcástico) o slogan “rouba mas faz” não imaginaria que em poucas décadas o bordão perderia o tom sarcástico. O homem-médio brasileiro parece sentir a corrupção como algo naturalizado (do furar fila aos pequenos desvios de verbas públicas) e somente passa a demonstrar indignação a partir do alimento midiático. Em nossa história recente temos os caras pintadas do Fora Collor e agora também em verde e amarelo a multidão grita pelo fim da corrupção. A indignação com representantes eleitos  merece toda atenção. Mas aqui residem dois problemas fundamentais: a desinformação da sociedade em relação ao espinhoso tema das pedaladas fiscais (não há consenso sobre o tema) e a anuência em relação a contraparte congressista.

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A intenção não é desqualificar a parcela da população favorável ao impeachment de Dilma Rousseff, mas de problematizar a forma como o processo é veiculado e como é aceito sem qualquer contestação. É do interesse de uma parcela significativa da população que ocorra o impeachment isso é fato inegável. Não sabemos ainda se motivados pela ascensão social e econômica de uma população alijada de qualquer perspectiva (a nova-nova classe média). Não sabemos se foram as contínuas derrotas nas urnas no plano federal (2002-2006-2010-2014). Não sabemos se pela genuína vontade de combater a corrupção. Não sabemos se em função da crise econômica global. Ou talvez essas e muitas outras facetas tenham servido de agente acelerador no avivamento da lisura, honestidade, seriedade… Atualmente apenas o Bolsonaro tem aparecido na mídia e sido aceito pela população como detentor de todas essas virtudes. Ele não tem capital político algum, mas se o empresariado começar a notar como as classes C e D o percebem… toc toc toc

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Enfim, qualquer leitura abre possibilidades múltiplas de interpretação.  Mas se a ideia principal está centrada no combate à corrupção como compreender o silêncio sobre o Presidente da Câmara dos Deputados? Para o paulista (as maiores manifestações anti-Dilma concentraram-se em São Paulo) fica a questão dos escândalos abafados: trensalão, máfia das merendas  entre tantos outros. Assumimos o jeitinho brasileiro como caráter nacional, quase uma tradição e nossas pequenas corrupções são toleradas/festejadas (levar uma canetinha do escritório, parar na vaga de deficiente físico, dirigir alcoolizado etc.). Todavia, para a política nos imbuímos de virtù, estufamos o peito e bradamos: BASTA! E ainda assim, quando a retidão e a justiça são nossas bússolas relativizamos a corrupção. Nosso Congresso pode não ter credibilidade, mas nossa sociedade civil é seu espelho.

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Infelizmente ainda vivemos e consumimos heróis porque a salvação não parece estar em nossas mentes e vozes. Nos últimos anos o elenco não parou de crescer: Fomos Barbosa para presidente, nos purificamos ao sabor de que não elegemos Dilma, passamos a celebrar Cunha como um combatente fervoroso da corrupção, depois passamos bendizer um outro juiz.

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Por mais piegas que seja (…) minha fé está e sempre estará no heroísmo de cada um que consegue ser um cidadão pleno. Reivindicando direitos, contextualizando a demanda por novos direitos, acompanhando o seu representante (tendo recebido ou não o seu voto), conhecendo o seu país. E defendendo o seu país como unidade.

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* Link para realizar o download do livro (não contém os prefácios)

** Existem dúvidas sobre a autoria. Mas a historiografia aponta Paulo Duarte como o mais possível responsável pela frase.

snakebites

Deus, família & amigos…

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O gosto é amargo. Quando estamos à mesa e tem jiló sabemos o que vamos enfrentar. Nos últimos meses fui para São Paulo me juntar à pluralidade de gente que acredita na democracia, acredita na Constituição de 1988. Estive na avenida Paulista, na Praça da Sé e ontem tomei coragem para enfrentar 300 quilômetros e, novamente, colocar minha voz a serviço de milhões de brasileiros que tem conseguido um quinhão do que a Constituição aponta como necessário à sobrevivência. E o Vale do Anhangabaú estava lindo.

A lógica, a racionalidade e os anos de estudo não estiveram ditando os meus passos, fui na esperança de que talvez a votação de ontem pudesse ter um resultado diferente do esperado. Imaginando o amargor não deixei minha voz abater: “Não vai ter golpe, vai ter luta”. E minha voz nunca esteve atrelada ao desastroso governo Dilma ou quiçá o Partido dos Trabalhadores. São atropelos na liberdade de expressão, do ir e vir. São machadadas na preservação de nossos índios, de nossas florestas. É o desrespeito com o trabalhador (de ajustes fiscais, reforma da previdência, terceirização, flexibilização de conquistas trabalhistas suadas). É a morte diária nas variantes das questões de gênero (mulheres, população LGBTQI+).

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É a negação do valor da vida do negro, do pobre, dos sem teto, dos sem-terra. São as muitas vezes em que formas diversas de fé foram tombadas como ridículas e, em certa medida, hostilizadas. Foram muitas as omissões e os erros que um sistema de política de coalizões criam. Mas existem também os equívocos acima de qualquer necessidade de alianças partidárias espúrias. O PT não soube e, aparentemente, não consegue ler a realidade à frente. Nem os outros de compreensão mais à esquerda. Diacho, a social-democracia não vingou por essas terras, né?

Fica a questão que tem abatido os melhores dentre nós, pensadores do Brasil: como defender o indefensável? O presidencialismo de coalizão é nossa realidade. A reforma política talvez ocorra, mas não nos próximos anos. E nem é a questão da bancada da bíblia ou da bala. Mas não parece ser o anseio da sociedade civil.

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A resposta é complexa e doída e não cabe neste blogue ou em qualquer outro meio. Serão necessários esforços de intelectuais comprometidos em conhecer esse país para um dia conseguirmos entender esse momento. E esse momento parece um loop de um círculo do inferno.

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Um país que amargou duas décadas de um regime de exceção, de uma ditadura branda, de um regime militar ou a forma que queira chamar o período em que vivemos de 1964 a 1985 ter gente às ruas pedindo uma repaginação daquele momento pode levar qualquer historiador à insanidade.

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O que me causa espanto desde as manifestações de 2013 à votação de ontem na Câmara dos Deputados não é assistir a fala favorável a um regime militar. Olhando rapidamente para o Congresso ainda vemos artífices da Arena (!) Mas o que chega a causar ânsia é observar a quantidade de jovens apregoando esse ideário fascista. Assim como ver que o deputado Jair Messias Bolsonaro cresce e não dá mais para questionar o capital político que ele vem angariando. Esse deputado jamais deveria ter alcançado esse posto. Mas é inegável que o que ele apregoa encontra espaço em cada vez mais camadas sociais.

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Talvez meu otimismo de Cândido olhe para os dados de quais políticos brasileiros tem o maior número de seguidores como a possibilidade de ter gente querendo apenas acompanhar as atrocidades ditas pelo deputado. O mesmo deputado que ontem utilizou o voto e a fala para homenagear Brilhante Ustra, o temido Coronel chefe do DOI-Codi.

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Mesmo quem aponta o período de 64 a 85 como ditabranda ou apenas regime de exceção à prática democrática consegue tecer algumas linhas sobre as restrições de expressão e de associação. É de um absurdo nunca visto em qualquer lugar da história (ocidental ou oriental). O grito dessa parcela da população vem de onde? Como pedir que limitem a sua liberdade de fala utilizando uma liberdade de fala conquistada por não viver em tempos de restrição dessa mesma fala? Há intelectuais de peso chamando essa parcela da população e os políticos com essa ótica de meros caronistas. Seria pouca visão, o longevo período na torre de marfim ou simplesmente desonestidade intelectual? Ainda não consigo ver outras possibilidades.

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Nossa mídia (imprensa escrita e, especialmente, a mídia televisiva) esconde ou deturpa fatos? Oras, basta olhar além-mar para conseguir um pouco de ar fresco. Imprensa de caráter conservador ou mais liberais estão atônitas com o que vem ocorrendo, ou será que dá para colocar a chancela de petralha no prestigiado NY Times, El País ou BBC entre tantos outros. Talvez a Organização dos Estados Americanos também seja petralha. A população quer cidadania, mas não quer vivenciar o trabalho de ser cidadão. Quer dizer, você deseja se informar apenas pelas revistas Veja, Isto É, Exame, Época etc.? É sua prerrogativa. E ao mesmo tempo que escrevo isso para você falo também para quem apenas lê Pragmatismo Político, Revista Fórum, Brasil247 entre outros. Não existe mídia isenta. É uma ingenuidade que não cabe ao Século XXI. Mas você, cidadão bem informado pode existir! Isto é, enquanto o projeto de plano de internet banda larga não passa você pode acessar todo o tipo de informação e criar algo único e que tornará você diferente de qualquer outra pessoa no mundo: um ser com opinião própria.

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Quando lecionei minha maior sensação de vitória vinha quando um aluno questionava uma informação ou simplesmente problematizava algo que eu havia falado. A verdadeira função do educador é alimentar a curiosidade do aluno, dar ferramentas para que ele se torne uma pessoa crítica e rica de conhecimento. Alguém que não acredita na primeira peça de informação que cai no colo. A cada vez que eu falo, mentalmente agradeço a todos bons professores que tive: conservadores, weberianos, liberais, marxistas etc. etc. etc.

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Hoje existe a possibilidade de acompanhar via newsletter o que o seu vereador, prefeito, partido de preferência, deputados (estaduais e federais), senadores, governador, presidente da república falam, escrevem… Afora, a possibilidade de acompanha-lo via twitter, facebook e outras redes sociais. Meu mantra sempre foi e sempre será: Seja esquerda, seja centro ou seja direita. Mas antes de tudo seja informado. Quem acompanha verborragia de canais no Youtube e assume como verdade ou tem má vontade ou ainda é somente mais um ignorante. E pera lá, ignorante não é xingamento: ser ignorante é condição mutável. Eu sou ignorante em incontáveis matérias (e bota incontável nisso!). E quando uma dúvida recai sobre uma dessas matérias eu pesquiso e analiso diversas fontes antes de sair com uma verdade pronta e destilar aos quatro ventos.

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Continuarei a luta (a boa luta) de fazer a minha voz valer pela de milhões e não estou sozinha. Porque o meu voto vale, assim como o de todo os brasileiros. Porque eu não sou uma cidadã de segunda classe, como nenhum brasileiro. Porque a bandeira verde e amarela me representa e sempre me representará. Porque amo meu país. Porque muita gente antes de mim lutou para que eu pudesse falar o que penso. Porque governo impopular não é motivo para derrocada de um presidente. E, principalmente, porque acredito no Estado Democrático de Direito.

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Para saber o que acontece no Senado: Senado Federal

Para saber o que acontece na Câmara: Câmara dos Deputados

Para saber o que acontece na Presidência da República: Planalto

E continuemos a luta!

#Alutacomeçou

snakebites

 

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