Traça de Herodes

Traça de Herodes

Mesmo no mais belo vestido de baile

o que fica à vista é a pele úmida,

flácida e quase escamosa

as paredes do salão aquecido vibram

E quem ainda faz músicas de amor?

Olhando ao redor todos os tons de rosa se espalham,

são fractais espassados por sabores desconhecidos

Há muitos espelhos (…)

Rodopia, rodopia, rodopia muito rápido,

para escapar ao próprio reflexo

Não é vergonha, nem temor (…)

falta-lhe um chapéu, uma arma

e um punhado de areia

Mesmo no mais belo vestido de baile

o que fica à vista é a fumaça planando,

estática, sem desenho

As paredes do salão aquecido vibram

quem ainda ama a música?

Olhando ao redor todos os tons de rosa se espalham,

são fractais espassados por sabores desconhecidos

Há muitas pessoas (…)

Rodopia, rodopia, rodopia muito rápido,

para escapar ao seu par

Não é desamor, nem indiferença (…)

falta-lhe uma rosa, um lápis

e um punhado de meias-verdades

Mesmo no mais belo vestido de baile

o que fica à vista é o cabelo golpeando a testa suada,

a mão trêmula em busca da perfeição

quem ainda dança músicas de amor?

 

 

Comecei a fazer “Traça de Herodes” em fevereiro, não me recordo da motivação primeira, mas finalizei após o massacre de Realengo. Antes do acontecido, Realengo era para mim e , possivelmente outros que desconhecem os bairros cariocas, apenas um elemento de “Aquele abraço”, do Gilberto Gil. A ironia doida é que o “Alô, alô Realengo, aquele abraço” é uma referência a quando Gil foi encarcerado no quartel de Realengo (1969). Então, humilde parodio aqui a ideia do grande Gil e  deixo neste território virtual um abraço e que todos de Realengo (e além) consigam toda luz para seguir em frente.

Atos como o de Realengo fazem surgir todo tipo de questão, não sabemos qual a mais naturalizada, principalmente, quando as vítimas são crianças. A mistura de sensações parece conduzir à resposta alguma. E sim, o Herodes do poemete é o mesmo que perseguiu a criança Jesus.

 

snakebites!

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Muralhas

Há tempos (nunca somados) sinto vontade de retomar a poesia de Kaváfis. Também há tempos eu pensava em transformá-lo em objeto de estudo, mas graças à “santa mão” das Ciências Sociais não fiz tal temeridade (fiz outras, menores). Já apontei que não sou adepta da poesia, meu coração sempre esteve e, acredito que sempre estará na prosa. Entretanto, deixei que o alexandrino-grego (risos) me conduzisse por toda espécie de tortura e êxtase. Não há arrependimento algum, mas ele me deixa mais melancólica e negligente com certos aspectos da vida. Apesar do cenário precisei do velho Kaváfis… (só por hoje).

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MURALHAS

Sem consideração, sem piedade, sem pudor,

grandes e altas muralhas em torno de mim construíram.

E agora estou aqui e me desespero.

Outra coisa não penso: este destino devora meu espírito;

porque muitas coisas lá fora eu tinha que fazer.

Ah! quando construíam as muralhas, como não dei atenção?

Entretanto, jamais ouvi batidas ou rumores de pedreiros.

Imperceptivelmente, encerraram-me fora do mundo.

                                                                                                                     Konstantino Kaváfis

 

Crédito imagem: http://descontexto.blogspot.com/2010/12/murallas-de-konstantinos-kavafis.html

snakebites

objeto de desejo

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Objetos de desejos lista 1001. Já faz um tempo que não verifico minha lista de desejo que repousa no site da FNAC… A lista merecerá a atenção devida em breve. Defini que preciso continuar “em busca do amigo das horas”… A foto acima se aproxima bastante do bracelete-munhequeira relógio sonhado… Veremos o que dezembro proporcionará.

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Nos últimos dias tenho pensado bastante em conceitos que se tornaram princípios de moral e princípios de moral que voltaram ao terreno ardiloso de uma caverna de ideias. Platão mestiço à parte, continuo a perceber uma mudança de valores tensa e estranha.

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Redefinir a própria voz é custoso para covardes e bravos, maniqueísmos soltos não auxiliam em nada. Cada tempo real permite ou força uma correspondência, as ações ocorrem independentemente de nossa possível inércia. Há uns dez, onze anos aprendi e  compreendi duas coisas que mudaram minha forma de enxergar as pessoas:

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– a ausência de tomada de decisão é, em si, um ato político

– a apatia não pode ser mero dado

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Esse entendimento não se restringe à política (de discurso ou partidária), carrego isso como uma verdade íntima de qualquer ação. Isto é, um homem rendido ao desespero (de qualquer natureza) ou ao amor não está realizando apenas um ato de fé, mas apresentando uma voz.. Em outro momento tentarei me aprofundar neste pensar….

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Logo abaixo há uma poesia que é especial por diversas razões… Bem, acho que é de 2003, fiz para “aclimatar” os ensaios sobre cultura brasileira (de uma disciplina sobre literatura e sociologia) e também para procurar não perder o lirismo (a academia pode fazer isso).

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snakebites

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A Virtú e o Brasil

Nesta modernidade de dias vazios

Surge um monte sob um capuz

E vergalhões roubam-lhe o verde

A virtude é nossa ditadura infiel

Retrato maduro de nossas falhas

Desertores da realidade cotidiana

Legamos inação aos nossos braços (servis)

E cegueira aos nossos olhos

Acorrentados e bêbados de vergonha

Quando a chave da soltura pende.

cordão de ouro em nosso colo

O reflexo da luz queima a virtude

Do belo e fatigado conquistador

Majestoso rei sem costelas

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novos snakebites

novas pílulas de terça

Vire, vire todas as páginas que encontrar até que a felicidade deixe de ser névoa. Um pensar torto assim incrustrou-se  em mim e raivou o nada bendito eco antes do sonho me alcançar. Resisti ao sono em busca do amigo perdido. Não duvidem de mim, acho impossível estar mais alquebrada, andei todas as milhas desnecessárias que vi à frente e flertei com lirismo o suficiente para que, mesmo vigilante da necessidade de deitar as pestanas… algo inflamasse a vontade de voltar a ser uma escriba estupefata. Tenho escrito a prosa mais patética e inerme da História. Bah, talvez eu ande excessivamente infame e pretensiosa nesses tempos de pós-modernidade. A Academia faz isso. Sempre fui mais afeita aos prosadores, mas recai em minha sombra uma veia que teima em quebrar a prosa, fazer dela curta e muitas vezes ininteligível até para mim. Ou seja, olho e revisito todos os meus temores e lá está outro poema!

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Já se foram muitas noites e ainda busco o primeiro verso do poema perfeito (todos eles nascem perfeitos, o desenvolvimento que destroça…). Ah, explico, relevei a importância de ter a companhia de caderno e lápis ao meu lado, como amantes, desta feita, quaisquer ideias deveriam se refugiar até a manhã seguinte para que eu – finalmente – desse a precisa voz. Resta-me a (não tão doce) ilusão magnânima de que o poema perfeito, na ausência de forma viverá em nula lembrança toda a perfeição. Algo a celebrar, não?

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snakebites

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– agora muito bem acompanhada de caderno (pobre dissertação “rascunhativa”) e caneta (meus lápis estão abatidos pela falta de uso e se deixaram quebrar… hmpf)… vejamos se consigo encontrar meus amigos perdidos.

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novos snakebites

fé nada institucionalizada

Hora do desdito (23:21)

Uma cabeça plúmbea cai em meu colo
Olhos encantandos por várias luas quebradas
Gentilmente afasto pequenas formigas vermelhas de sua miséria
A carne ainda não bastava
E o sorriso ressequido – feito à lâmina – era para outra
Uma prece surda repetia-se pelas frestas, brechas e vãos do meu casulo
No interior dessa loucura porosa
outra razão sucumbe ao desejo insatisfeito
Parece-me um válido acidente,
dispensando quaisquer fluídos
Atrás de uma perdida há a cruz
e ela não queima, a ferida é outra


a percepção calada costuma apontar para alguma nitidez. não me recordo de quando escrevi o poeminha acima, mas foi nos últimos meses. passei alguns anos sem escrever, procurando rabiscar algo que pudesse ser meu e facilmente articulado com um momento específico. de repente a qualidade dos “textos” deixou de ser importante, basta-me conseguir escrever.


a hora do desdito não será esquecida e a razão para a expressão também não. acho que nunca acreditei em um grande salvador, mas busquei respeitar todos fiéis. entretanto, alguém se colocar como porta-voz de algo nada palpável causa-me verdadeiro horror. por enquanto estou livre desses espécimes.

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natalina foi às compras

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Sem título

 

Sintam a estrada de qualquer fruta

e em todos os signos

Temor à cegueira que não se afasta

Um café e alguma fumaça

Quando a espera é inútil?

Nesta grota acumulam-se números

O pulso do constrangimento é incolor

E nele flutuam dúvidas,

débito e agressão

Quem se afoga no interior de desculpas?

Pretensa tempestade alivia o pesar,

acarinhando mãos e se esquecendo

[do que restou]

Miséria, fantoche do circo de Ramires

 

 

aguardando algo sem saber muito bem o que poderia surgir… veio a ideia pro poeminha.

engraçado como o tietê, a rodoviária, fica com um ar sentimental durante as festividades de final de ano. todos sorriem mais coisa e tal. e vendo as pessoas com tantos pacotes o capitalismo me pegou em cheio ontem. eu não havia comprado nada pra mim, então arrebanhei um cabo usb pro celular novo mais pedra para o que não é zippo.

 

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