Preconceitos visuais e auditivos – vol. II

Não conheço vivente algum que não possua uma, duas ou mil vergonhas musicais. Eu sequer sei a quantidade das minhas…  Muito menos sei da possibilidade de mensurar algo assim. De qualquer forma, meus amigos de caráter musical mais pop acham meu ouvido excessivamente roqueiro, já para os roqueiros de plantão sou uma traidora da raça. Nesse limbo esquisito vou vivendo…

Em 2010 decidi deixar as vergonhas em casa, o meu cantarolar ou execução de passinhos em plena via pública estava começando a ficar embaraçoso, não combinava muito com a pretensa adultice que eu deveria incorporar.

Solução? Resolvi deixar minha playlist mais sóbria. Por um lado foi ótimo, passei a conhecer novas sonoridades e anulei possíveis constrangimentos sistêmicos. Todavia, nas viagens para sampa (especialmente nas viagens para sampa) eu ficava entediada com tanta sobriedade. E, diacho (ou seja, causodiquê?), o paulistano não tem tempo para ficar vendo quem tá alucinando com música, muito menos eu trombaria com algum professor, certo? Darei sopa pro azar!

https://www.youtube.com/watch?v=QtxlCsVKkvY

snakebites

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Preconceitos visuais e auditivos – vol. I

Ontem eu fui tachada de preconceituosa, disseram-me que, por conta disso, sou incapaz de absorver as mudanças do novo cenário do pop. Não é segredo que sou chegada num pop (embora um tanto datado…). No momento estou ouvindo “Wild boys”, Duran Duran, preciso ser mais explícita? Sou uma garota rock n’ roll, mas o sangue pop também corre em minhas veias…

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Sempre escrevo meus artigos e ensaios à mão, só depois digito, parece que dá um pouco mais de trabalho. Entretanto, o processo de reescrever melhora a qualidade do texto e me permite ajuda a ser um pouco mais sintética.  Ademais, eu consigo ouvir música enquanto estou digitando, mas nunca quando estou em pleno processo criativo (posso ouvir de Wagner a Iron Maiden). Então hoje resolvi tirar a prova dos nove:

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Nesta quarta eram muitas páginas a digitar, resolvi trabalhar na sala com a tevê ligada, deixei na MTV. Descobri algumas coisas interessantes. O “30 Seconds to Mars” tem um clipe (agora o título me fugiu, talvez Hurricane ou coisa que o valha) super bem produzido, parece coisa de cinema, já o som não me ganhou. Nos intervalos da programação aconteceram coisas esquisitas, um comercial da própria rede mostra um pessoal num churrasco (com meninos barangos e meninas lindas, claro! claro! claro!), de repente um leiteiro passa, deixa uma caixinha de leite com o logo da MTV, uma das meninas bebe… Daí acho que ocorre uma homenagem a Lady Gaga e seu vestido de carne.

Explico, a menina que bebeu o leite pega um bife sangrento (pingando mesmo) e passa pelo próprio corpo, depois no corpo de outra menina e então elas começam a se entreter em termos errr sensuais e os baranguinhos voyeurs ficam lá, como baranguinhos voyeurs que são. Retorna a programação e agora tem a Sandy com um clipe existencial (“Quem eu sou” ou algo assim, perdi o título… de novo), nada contra a moça, mas será que ela consegue ter uma voz mais irritante? Não, não me entendam mal, não acho que ela seja desafinada, mas o som dela respirando já me enerva.

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No momento tem a Restart, num daqueles comerciais de SMS para receber músicas. Até hoje eu chamava os coloridos de “o” Restart, agora sinto-me mais sábia a respeito do universo musical brasileiro teen.

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Outra pequena descoberta, a Pitty (sim, a “roqueira” baiana) tem um projeto paralelo chamado Agridoce. Não gosto dela, mas Agridoce não me parece tão chato quanto a tentativa de fazer rock… meio ponto para ela.

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Ok, aguentei quase duas horas de MTV. Talvez o que eu possua não seja (ainda) conceito, mas não irei lamuriar a respeito deste preconceito arraigado.

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O pequeno exercício de alteridade me deixou deveras mal-humorada… Mas nada que o Jorge Ben, quando ele era somente Ben não resolva.

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Despeço-me ao som de Jorge Ben “Os alquimistas estão chegando”.

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Mais uma, por favor?

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Andei remexendo nas compilações feitas ao longo dos últimos dez anos. Será possível tamanha nostalgia? O que se pode dizer de alguém que ouça somente poeira e ainda possua tanta nostalgia? Apreço por velharias… Assustei-me com a minha capacidade burocrática. Reconheço a mania de organização como inerente ao meu ente. Todavia, a organização beira o fanatismo. Vi como minha concepção “rotuleira” modificou ao longo dos anos. Comecei feliz, tascando nomes quase fofos nas pastinhas: Brilhantina, Lado A, Lado B (nenhuma inspiração em U2, por favor), Sujinhos e Mal-Lavados, Mauricinhos da Vila e por aí vai, depois fiquei “a séria por excelência”, perdi algo da graça que o rock n’ roll tem e merece deter um caráter permanente.

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No momento estou ouvindo Whisky in the jar – Thin Lizzy, a coisa biblioteconômica perde qualquer vazão…

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Minha primeira pasta:

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Pré-rock / Rockabilly

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A pastinha foi criada para não ocorrer a vizinhança quase espúria de Bill Halley mais Creedence Clearwater Revival. Apesar de gostar muito da sonoridade tenho pouquíssima coisa. Mas como não dançar e se esquecer do mundo?

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Classic Rock / Rock n’ Roll

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Agora estou ouvindo Suzi Quatro – Keep a knockin’) e incrivelmente infeliz por ter nascido na década errada, nada contra os 80’s (au contrárire, mon frère!), mas costumo me imaginar nascendo durante a Segunda Guerra (obviamente que nos States ou na terra da Rainha) e podendo ter a idade perfeita pra sentir a vibração da novidade em ouvir a guitarra sendo tocada de todas as formas e quando os caras da cozinha não, simplesmente, violentavam bumbos e pratos.

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Glam Rock ou Glitter Rock

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Parece coisa do destino, mas neste instante comecei a ouvir uma das múltiplas fases de David Bowie – The Jean Genie. Não sou muito fã de maquiagem pesada e indumentárias mil, isto é, para música nunca fui muito visual (Twisted Sister e afins que me perdoem pelo esforço). Nos anos 70’s não havia problema algum de ouvir x ou y, apenas o som importava. Deveria ser assim para todos os lados.

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Hair Metal

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Bem, se por um lado eu não tenho reclamações sobre o povo glamouroso acima, a coisa pesa pro povo do hair metal. Ok, o nome é óbvio e convincente, mas essa galerinha não tem vergonha de pertencer a um gênero, sub-gênero do rock por conta das madeixas? Na realidade só criei a pasta para não deixá-los conspurcar a pastinha seguinte. Poser por poser fico com os que manejam a guitarra como deuses. Quem ainda ouve Spinal Tap, Nelson? Não sei, mas eu estou ouvindo “I’m a man”, The Spencer Davis Group. Quem não conhece ainda não pegou o espírito Rock n’ Road…

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Hard Rock

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Sexo, Drogas e Rock N’ Roll, quando o estilo de vida encontra voz e guitarras, baixo e bateria (o que não provê orgulho pra mãe alguma – dos músicos, é claro –, but who’s care?). Meus amores conseguem pintar delicadeza e aspereza. É a única pasta que possui o dom de servir como trilha para cada momento da minha vida.

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Punk Rock

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Ha-ha, tocando Sufragette City (David Bowie). Nunca ouvi punk pra me deliciar. O punk era colocado somente quando havia muita raiva no ar e eu queria gritar sem dar nota da confusão interna (exceto por Ramones, Ramones sempre cai bem). Sem raiva, mas me deu vontadezinha de ouvir Dead Kennedys.

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Soft Rock / Slow Rock / Low Rock

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Ctrl A + Play apenas em momento de horror por amor (sofrimento é vocábulo pesado demais para representar outra coisa, haveria outro motivo para ouvir Wilco ou Belle & Sebastian?)

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Pop Rock

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Eu poderia ser presa por fanáticos, mas nesta pasta só tem coisa trolha. Adoro pop, mas pop rock vale tanto quanto tampa de cerveja (já colecionei mas, num dia olhei e me perguntei: why-why? E foi tudo pro lixo e sem arrependimentos…). O único nome de peso e que seria motivo de linchamento é o Paul David Hewson, aka Bono Vox (o apelido arrogante!), ooops… U2 (mas que fique claro: adoro o The Edge).

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Indie 

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Seriedade. Muita seriedade. Por que as bandas indie são as mais endinheiradas? Indie my ass! Independentes? Até acho o som de algumas bandas interessantes, mas eles merecem a pecha de malas. Assim como o Bono Vox, discursos à parte… o custo dos ingressos assusta até a classe A. Precisa de tanta parafernália para tocar um roquinho? Em relação ao mundo indie a posição de soberba causa-me pavor. Franz Ferdinand, Muse e outros batutinhas ainda estão “catalogados” como e enquanto indies? Please, kiss my ass! E pra não falhar com a sincronicidade (música e pensamento: Nazareth, “Shanghai’d In Shanghai”).

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Heavy Metal

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Incrivelmente só ponho pra tocar quando estou “naquela” calmaria (não confundir com marasmo). A sensação é a mesma de quando ouço música clássica (apenas os dois gêneros são funcionais quando estou no momento estudar-concentração total). Outra coisa, as imagens que surgem em minha mente nada tem a ver com universos medievais, morcegos ou coisa que o valha.

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Trash Metal

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Envergonho-me deveras, mas na pasta o Lemmy está só. Brincadeira, não tenho vergonha… Desse naipe só consigo ouvir Motörhead [principalmente o Iron Fist, pusta álbum lindo, mas o encarte é desaconselhável para menores ou não, depende de como anda a novelinha das oito].

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Doom Metal / Death Metal

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Ô sofrimento sem par! Conheço o gênero apenas por conta de dois amigos. Os dois vocalistas. A minha ignorância só me leva a diferenciar o vocal, o primeiro gutural e o segundo (muito) gritado-berrado, mas não sei se dá pra generalizar. Agora tocando o bom e velho Mungo Jerry, “Wild Love”.

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Rock Ballads (emo atual?)

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Na realidade a pastinha só tem Brian (ou será Bryan? Não irei ao São Google pra verificar) Lagriminha Adams e Roxy Music. Entretanto confesso: quase coloquei o David Coverdale aqui.

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Pop/Trance/Trip-hop/Tecno/Dance/House/ Drum n’ bass

(enfim, as mil e três variantes do universo da música com suporte mais… eletrônico).

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Provalvemente é a pasta com coisas mais desconhecidas. Não faço a menor ideia de como pude deixar na pasta “Eletrônica” gente como Michael Genius Jackson com um povo que (valha-me dio sancti) só deve ser consumido em momento de exasperação ultra-mundana (sarjeta surda). Todavia, além do rei eu ainda me derreto ouvindo Cher (qualquer fase), e ainda preciso ouvir Portishead (dia de êxtase, ou como o pai de todos os burros indica: “prazer intenso; sensação deleitosa; voluptuosidade, deleite”), Prodigy (ah, meus 18 aos que não terminam) e Moby (algum problema?!).

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Atualmente não tenho critérios para definir qualquer sonoridade, cada pessoinha musical ganhou nome, sobrenome e pastinha próprias. De certa maneira acho que estou orgulhosa da alteridade momentânea.

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Despeço-me ao som de The Doobie Brothers, “China Groove”.

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